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A vida de um Colono Europeu 1914

A colonização, como acontecia, era um ato de heroísmo, uma saga, quase uma epopeia.

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01-01-1914 00:00:00

Um lote de 25ha por agricultor, com direito a mais um lote por cada filho maior de 18 anos. Era permitido adquirir mais de um lote, mas o pagamento teria de ser a vista.

O preço do lote variava de 700-800 contos de reis até 2500 contos, procurando manter a média de 2000, para um lote rural de 250.000 metros quadrados. As condições eram de 1/3 de pagamento a vista e dois pagamentos de 1/3 em 2 e 3 anos. Os que não tinham recurso podiam adquirir, fazendo o pagamento trabalhando na abertura das estradas. Multas eram aplicadas nos atrasos. Havia outros descontos, por exemplo os nacionais gosavam do desconto de 20%.

 

Livro Colonos na Selva Marcelino Ramos em 1914

Em 1912, Johann Weiss deixou Munich, na Alemanha, com a família emigrando para o Brasil, vindo morar na selva próximo ao Rio Ligeiro a poucos quilômetros de Marcelino Ramos.

A família Weiss era formada de 5 pessoas: além do pai, Johann, a mãe Maria Grabriela a irmã mais velha, João Weiss, filho mais velho e o caçula, Hans, que contava, nesse ano, 15 anos de idade.

Jogados no meio do mato, sem assistência, sem estradas, sem luz, sem agua, sem viveres, sem teto para mostrar, a família Weiss passa perigos e agruras indescritíveis, mas, com uma tenacidade extraordinário, os emigrantes europeus conseguem fazer Deus olhar por eles e sobrevivem.

O filho mais velho inteligente e culto, 5 anos depois tenta a vida fora, primeiramente em Marcelino Ramos, e depois, em Porto Alegre, para onde se transferiu.

Na capital, torna-se representante de empresas alemãs no Brasil e vai bem, muda-se para Rio Janeiro, conseguindo até viajar para Alemanha, em mais de uma oportunidade, visitando a pátria amada.

COLONOS NA SELVA

João Weiss jovem de dezessete anos 1912, saiu de Munich, cidade moderna e culta da Alemanha e, 3 meses depois, estava confinando na selva próximo na selva próximo a Marcelino Ramos, Juntando todos os dias para se manter vivo, relatou, 30 anos depois em 1949, no Rio de Janeiro, no livro Colonos na selva, a saga vivida junto com a família no sul do pais, naquele que seria – senão o maior – um dos maiores e mais fieis relatos sobre a colonização brasileira obra prima no gênero!

O livro Colonos na Selva foi editado no dia 25 de março de 1949 no Rio de Janeiro, uma edição do autor, ganha em importância por ser um relato vivencial, fiel, onde tudo é correto, porque é a voz de quem viveu. Eletrizante, surpreendente, encantador.

Trecho do livro Colonos na Selva, de João Weiss:

Introdução: O autor coloca o sentido e os objetivos do livro.

Julgamos que a história de nossa vida como colonos na mata virgem do Brasil deve interessar a brasileiros e a estrangeiros.

Deve interessar principalmente aos brasileiros das cidades para conhecerem a luta e a vida árdua dos colonos no interior distante onde cumprem a difícil tarefa, voluntariamente aceita, de transformar a natureza bravia em terra cultivada, plantando não só milho, feijão e mandioca como também a civilização e deve interessar aos emigrantes europeus a procura de uma nova pátria e um futuro melhor, desejando transferir sua atividade para o mato e o campo a serem agricultores para colherem informações uteis e melhor apreciação de sua deliberação.

Confessamos que nossa narrativa não é o hino de louvor aos colonizadores nem à vida de colono, mas também não deseja ser um espantalho aos que pretendem se dedica à atividade de agricultor longe dos centros populosos e da civilização. Outrossim nada tem nosso conto de sensacional pois é apenas um relato fiel e simples da nossa vida como colonos na mata virgem, no Estado do Rio Grande do Sul, nos anos de 1912 a 1917.

Como não estivemos no mato por mais de cinco anos desejamos adiantar que não éramos “colonos fracassados”, ao contrário, éramos entre os agricultores da região os mais adiantados com a certeza de termos feito o que humanamente era possível de se fazer.

De fato vencemos a mata bravia exclusivamente pelos nosso braços, estabelecendo dentro de poucos anos a nosso autossuficiência alimentar, modesta em variedade porém abundante. Objetos de uso pessoal e doméstico assim como animais de cria e de transporte também conseguimos tanto quanto possível e suficiente à vida primitiva de um colono.

Hoje se passaram trinta anos mas nossa descrição será atual ainda por longos anos, enquanto houver mata virgem e campo agreste a colonizar e cultivar e a povoar. E quem poderá dizer dentro de quantos decênios o imenso território brasileiro será totalmente aberto à cultura e a civilização?

As condições de colonização poderão mudar para o bem do colono mas sua vida será sempre a de um pioneiro, a de uma bandeirante de atividade árdua e trabalhosa, perigosa e primitiva. E por esse motivo nossa história será atual ainda por muito tempo.

Entremeando o conto de quadros de nossa vida na pátria, ou melhor, no pais onde vivíamos na Alemanha do Sul, certamente não fazemos a título de comparação. Citamo-los apenas para que o leitor, desconhecedor do ambiente cultural dos povos da Europa Central, possa mais fácil aquilatar e compreender o estado de ânimo dos emigrantes europeus ao enfrentar, com a perfeita ignorância do ambiente, a vida de colono no mato. Ser colono significa regressar a uma vida de doloroso primitivismo em lugares distantes das zonas de cultura e civilização onde mais cômodo se obtêm o “pão de cada dia” e onde as leis trabalhistas e os serviços de assistência social escolar e de saúde são aplicados ao povo com indubitável vantagem e garantia de bem estar.

De fato, velho emigrante dedicar-se a sua exaustiva tarefa afogando os arroubos de saudade à pátria e à civilização no trabalho duro e incessante para garantir sua subsistência e educar seus filhos na mesmo escola de trabalho e honradez para que estes possam um dia usufruir os resultados de sua longa luta.

A saudade à terra natal é uma força indominável, capaz de influir de um modo extraordinário no sucesso do emigrante. Ela nem sempre é eliminada por uma vida de bem estar, mas sempre é fomentada quando se encontrar em situação material menos agradável ou difícil.

À muitos pode parecer que emigrar é o mesmo que fazer uma viagem de recreio: se não gostar volta-se à pátria desprezada. Mas sabem aqueles que emigraram que a coisa é bem diferente do que sonhavam. Não se troca a pátria como se muda de roupa e quando a saudade fere o ânimo com desesperadas chicotadas, na maioria das vezes as condições materiais do emigrante não mais permitem o seu regresso ao regaço materno. Transplantar seres humanos é algo de cruel, corajoso e arriscado, porque apesar do home ser intelectual e racional, seus sentimentos não se acamam tão simplesmente com uma ordem nem se abafam por força das circunstâncias.

Dos negros selvagens trazidos da África para o Brasil, e aos quais se atribui raciocínio primitivo, quantos não morreram de saudade por sua terra natal? Certos animais transferidos de ambientes de sua criação para ambientes estranhos não necessitam de cuidados especiais para não definharem até morrer? Plantas que se transferem para terras de climas estranhos não morrem se não lhes proporcionamos tratamento semelhante às condições do pais de sua origem? Como vai o homem se adaptar sem mais sem menos à ambientes e climas estranhos aos países de sua origem sem sofrer os choque daí provenientes?

São fatos que explicam certos fracassos de emigrantes em sua adaptação às condições materiais e culturais à estranha terra. E da “doença de saudade da terra natal” não está excluído o próprio português que, como emigrante, está em posição privilegiada com relação ao idioma e ao parentesco étnico do luso brasileiro.

Nosso conto “Colonos na Selva” foi concebido numa linguagem simples de expressões às vezes rudimentares, mas certamente atenderá mesmo assim à finalidade prevista a de ser um relato informativo e verdadeiro da vida de emigrantes europeus como colonos na mata virgem brasileira. “Colonos na Selva” não pretende ser nem deve ser considerado literatura recreativa.

Portanto descrevendo a nossa vida de colonos, expondo-a em termos francos a vista do leitor brasileiro ao estrangeiro, repetimos, não o fazemos a título de crítica, nem para amedrontar os interessados em se estabelecer no interior distante como agricultores pequenos. Fazemo-lo a título da informações às partes interessadas: os colonizadores e os cidadãos nacionais e estrangeiros que estiverem se preocupando com o assunto.

Rio de Janeiro, 23 de Março de 1949

CHEGADA AO BRASIL

A chegada dos emigrantes for pelo Rio de Janeiro, depois para Porto Alegre, depois ERECHIM (Hoje Getúlio Vargas) e, finalmente, o destino final, junto ao Rio Ligeirinho, hoje Apuaê-Mrim.

Estamos na madrugada do dia 25 de Março de 1912. Sobre o mar, longe no horizonte, uma faixa escura em forma irregular de altos e baixos estendia-se à nossa direita. Fazia imaginar uma consta montanhosa: era o Brasil.

Nosso navio “Martha Washington” singrava o mar tranquilo em marcha acelerada e os frito entusiásticos dos passageiros “terra, terra”, levava em poucos instantes umas centenas de pessoas, homens, mulheres e crianças, ao convés que, a essa hora matinal, estava sendo esfregado e lavado pelos marujos com visível satisfação de um breve e alegre descanso em terra. Em grande número gaivotas acompanhavam o navio como querendo desejar boas-vindas a todos.

 

POR QUE EMIGRAR? Da Alemanha, um pais evoluído, para a mata do sul do Brasil.

Nós, com mais oito famílias viemos de Munich , da Baviera, Estado da Alemanha de então, onde nós criamos. Éramos austríacos da parte alemã. Foi em 19000 que nosso pais emigraram para Graz na Áustria para Munich, que era cidade atraente e alegre. Os bávaros recebiam sem receio os austríacos alegres pôs eles mesmo eram folgazões, as vezes meio rudes, porém de bom coração e boa índole. Seu “humor” era indestrutível a par de bem desenvolvido gosto pelas artes e ofícios. Munich era considerada a Atenas alemã.

Todos os nosso ascendentes eram austríacos de idioma alemão e todos éramos morenos de pelo e cabelos castanho escuro. Minh irmã frequentava a escola das Irmãs Franciscanas e eu : durante sete anos , a chamada Escola Pública. Tanto a irmã como eu éramos bons alunos geralmente os primeiros das respectivas classes. Estudávamos muito, mas também trabalhávamos em casa. Meu irmão, o caçula, tinha lá suas regalias e por isso sobrava-lhe tempo para brincar. Com treze anos feitos eu já trabalhava como aprendiz comercial cursando a escola comercial noturna. Meu pai tinha duas lojas de calçados e artefatos de couro, uma no centro da cidade com oficina e outra no bairro do norte com nossa moradia. Vivíamos como outros milhões de burgueses remediados, mas não se podia fazer economias para futuras reservas ou melhora sensível de vida.

Os meus pais certamente eram como outros tantos milhões ávidos para encontrar algum meio ou alguma sorte que lhes proporcionasse um futuro mais concreto. Talvez fosse esse o motivo que os levou para emigrar para o Brasil uma vez que era “voz geral” que nas Américas todo mundo ficava bem em pouco tempo.

PORQUE O RIO GRANDE DO SUL NO BRASIL? O Brasil era o “Eldorado e o Rio Grande do Sul oferecia melhores condições”.

O Brasil era o novo “Eldorado” e em pouco meus pais se entusiasmaram com a ideia da emigração queriam ser agricultores numa região nova que estava sendo loteada na serra do Estado do Rio Grande do Sul. Era parcela de um vasto trecho de mata virgem que se estendia desse o Rio Grande do Sul, através dos Estados vizinhos de Santa Catarina e Paraná, até São Paulo. O clima dos estados do sul do Brasil era especialmente recomendado aos europeus: dizia-o o cavalheiro moreno de olhos escuros, vestido à “grã moda” que aos domingos à tarde estava à disposição dos que se interessarem para emigrar ao Brasil na sala de reuniões do restaurante “Ao Cervo de Ouro”, situado próximo da Catedral de Nossa Senhora em Munich.

Era um agente do governo brasileiro entusiasmando o povo a vir para sua terra em procura da sorte e da felicidade que a pátria distribuía tão parcamente. Dizia que havia lugar para todos os que quisessem vir: nas cidades, em oficinas e escritórios, no interior como agricultores. O Rio Grande do Sul oferecia as melhores vantagens. Um pedaço de terra nova, de exuberante fertilidade, onde crescia tudo o que se quisesse plantar, por um preço verdadeiramente irrisório. O governo até pagaria as despesas de viagem desde um porto da Europa até o destino final que, no Brasil o emigrante escolhesse. Se fosse ao mato ainda receberia ferramentas, sementes e alimentos para a porção de meses.

Uma das famílias companheiros de viagem de Munich, ficou em Erechim aceitando trabalho numa serraria próxima. Os restantes cinco chefes de família foram para o mato escolher, cada qual, seu lote de mata virgem. Iam em companhia de um dos auxiliares do agrimensor que havia loteado a zona e que fora recomendada como boa e fértil. Ficava distante, mas num raio de um dia de viagem em torno de Erechim só havia pinhas e a terra do pinha não ser para agricultura. Em seu solo só dá mandioca, batata doce, milho e feijão mal crescidos. Havia ainda a áreas referida de boa terra, mato de árvores de folhas caducas. Estava situada no Rio Ligeirinho que, em dois dias de marcha à pé se alcançava facilmente através da mata virgem.

 

NA NOVA MORADIA, JUNTO AO RIO LIGEIRINHO: A 20KM de Marcelino Ramos

Numa ensolarada manhã nossa tropa deixou Erechim, rumo ao Rio Ligeirinho, último e definitivo paradeiro de nossa longa já enfadonha viagem. Era meados de Maio, tendo deixado Munich em princípios de Março estamos pois há mais de dois meses em caminho a procura de nossa nova moradia.

Seguindo mais um pouco pela picada a dentro indicamos ao tropeiro um lugar que nos parecia. Era em volta de uma vastíssima arvore, grosa e alta em cujo pé, de raízes enormes sobressaindo da terra, depositamos nossa bagagem. Uma após outra, as mulas aliviadas da incomoda carga, enfiava-se pela picada a fora de volta, e o tropeiro-mor por último nos desejou boa sorte e felicidade, metendo as esporas nos flancos feridos do animal para alcançar a sua tropa que já se não via mais: só se ouvia o tim –tim –tim da campainha da égua guia. E foi nesse instante que nossa vida recomeçou em ponto zero, não muito distante da vida dos primitivos homens desta terra que viviam em matas e furnas.

Mas para que não tivéssemos a mesma sorte urgia preparar a terra para plantarmos pois era só com ela que contávamos para sustentar a nossa vida daí em diante. Uma horta com legumes era a primeira necessidade, depois uma plantação de milho, feijão preto, mandioca e batata doce. Além disso plantaríamos cana de açúcar e talvez trigo e arroz de montanha, o suficiente para o nosso uso. Mas a roça velha não daria para tudo isso e teríamos de derrubar a mata e preparar terreno. Ignorávamos naturalmente como proceder para obter os melhore resultados. Ninguém nos instruíra a respeito do trabalho de colono e nós éramos tão ingênuos que entramos na mata sem ao menos desconfiar da nossa incompetência para levar o nosso propósito a um bom termo.

 

ALGUNS ANOS DEPOIS: Depois de 3 ou 4 anos, passando extremas dificuldades a família Weiss faz um “balanço”, negativo, e pensa em procurar” trabalho remunerado”.

Trecho do livro

Fazendo novo balanço constatámos que já não tínhamos mais camisas, calças ou saias em boas condições. Tudo consertado com panos de diversas procedências. As panelas finas de esmalte já estavam estragadas e furadas pelo uso em fogo aberto e resinoso. Com os caçados rotos, usávamos tamancos; objetos de uso trocamos por galinhas; fatiotas boas trocamos por porcos; mais roupas e mais objetos de uso trocamos por alimento, anéis de ouro trocamos por mula velha. Não havia mais querosene. Dormíamos com as galinhas ou sentávamo-nos à fogueira raciocinando sobre nosso futuro que nos parecia bem preto.

Não havia dúvida. O emigrante é criatura de coragem e iniciativa. Mas ser colono e vencer todas as vicissitudes, contrariedades e provações, vencendo exclusivamente pelos seus braços, é qualquer coisa de heroico. Para tal mister só servem mesmo os melhores entre os melhores.

Os grilos a cantar, os pássaros a trilar, as borboletas multicores, os arvoredos e as árvores da mata virgem em flor, perfumando o ar trêmulo de calor tudo isso que é descrito em termos extasiantes em histórias bonitas sobre a selva tropical, nos eram coisas tão aborrecidas que as detestávamos e as maldizíamos. Nossa vida era mesmo de bichos do mato.

Mas também não podíamos parar de agir ema vez que não era possível mudar as coisas. Urgia pois arrumarmos trabalho remunerado para adquirir o mais necessário à nossa pobre existência. Já não pensávamos em divertimentos ou coisa semelhante, queríamos apenas melhorar um pouco de vida, garantir apenas sua subsistência material.

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